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AMAR
Que
pode uma criatura senão,
entre
criaturas, amar?
amar e
esquecer,
amar e
malamar?
amar,
desamar, amar?
sempre,
e até de olhos vidrados, amar?
Que
pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho,
em rotação universal, senão
rodar
também, e amar?
amar o
que o mar traz à praia,
o que
ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é
sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar
solenemente as palmas do deserto,
o que
é entrega ou adoração expectante,
e amar
o inóspito, o áspero,
um
vaso sem flor, um chão de ferro,
e o
peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o
nosso destino: amor sem conta,
distribuído
pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação
ilimitada a uma completa ingratidão,
e na
concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente,
de mais e mais amor.
Amar a
nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a
água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
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CANÇÃO AMIGA
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
Que passa por muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
E saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
Como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
Dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
E tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
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CIDADEZINHA QUALQUER
Casas
entre bananeiras
mulheres
entre laranjeiras
pomar
amor cantar
Um
homem vai devagar.
Um
cachorro vai devagar.
Um
burro vai devagar.
Devagar...as
janelas olham.
Eta
vida besta, meu Deus.
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JOSÉ
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E agora,
José?
A festa
acabou,
a
luz apagou,
o
povo sumiu,
a
noite esfriou,
e
agora, José?
e
agora, você?
você
que é sem nome,
que
zomba dos outros,
você
que faz versos,
que
ama, protesta?
e
agora, José?
Está
sem mulher,
está
sem discurso,
está
sem carinho,
já
não pode beber,
já
não pode fumar
cuspir
já não pode,
a
noite esfriou,
o
dia não veio,
o
bonde não veio,
o
riso não veio,
não
veio a utopia
e
tudo acabou
e
tudo fugiu
e
tudo mofou
e
agora, José?
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E
agora, José?
sua
doce palavra,
seu
instante de febre,
sua
gula e jejum,
sua
biblioteca,
sua
lavra de ouro,
seu
terno de vidro,
sua
incoerência,
seu
ódio - e agora?
Com
a chave na mão
quer
abrir a porta,
não
existe porta;
quer
morrer no mar,
mas
o mar secou;
quer
ir para Minas,
Minas
não há mais.
José,
e agora?
Se
você gritasse,
se
você gemesse,
se
você tocasse
a
valsa vienense,
se
você dormisse,
se
você cansasse,
se
você morresse...
Mas
você não morre,
Você
é duro, José!
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Sozinho no
escuro
qual
bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se
encostar,
sem cavalo preto
que fuja a
galope,
você marcha,
José!
José, para
onde? |
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LEMBRANÇA DO MUNDO ANTIGO
Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.
As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das onze horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
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