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" - Escritor? E isso é profissão que se apresente? Eu achava que era. Tinha 16 anos, morava numa pequena cidade do interior (Lins) e já escrevia no jornal da cidade (coluna social, pode?) e na Última Hora do grande mestre Samuel Wainer. Você escolhe: medicina, engenharia, advocacia, odontologia. Ou Banco do Brasil. O que eu queria era sair de Lins, ir para São Paulo, escrever. Ler. Conhecer pessoas. Ser comunista. Entrei para o Banco do Brasil onde trabalhei durante 8 anos. Fiz faculdade de Economia na USP, fui aluno do Delfim Neto.Quando estava com 24 anos (1970), larguei o Banco e a faculdade. Ia ser escritor. Meus pais quase morreram. Mas o velho, filho de um poeta amador, como quem não quer nada, me deu, de aniversário, uma Lettera 22, da Olivetti, que iria me acompanhar até o advento do computador. Escrevo para cinema, teatro, televisão, literatura infantil e adulta. Só não escrevo bulas e poemas, que eu acho um pouco difícil. Desde os 14 anos, na Gazeta de Lins, deste ofício esquisito de escrever. Não fiquei rico. Mas pobre não sou. Dá para ter um carrinho do ano e viajar de vez em quando. Acho que se eu estivesse no Banco do Brasil ou me formado em Economia, estaria na mesma base. A diferença é que eu adoro o que eu faço. Imagine você ficar alguns dias sem fazer absolutamente nada, tomando uma cervejinha, dando uns tapinhas e tendo umas idéias. Pois é disso que vive o escritor. De ter idéias. Quanto mais maluca a idéia, mais eles pagam. Isso é que é incrível: a gente fica pensando besteira e sempre tem alguém que paga para você fazer isso. Claro que tem também o trabalho braçal da datilografia. Mas hoje em dia, com o computador, até essa parte (a mais chata do ofício) ficou bem mais lúdica. Escrever no computador, como eu estou fazendo agora, é mais uma brincadeira. E por falar em datilografia, me lembrei de uma história que se passou com um dos nossos maiores cronistas e tradutores: Paulo Mendes Campos. Estava ele a fazer uma tradução dificílima de Shakespeare e um pintor de paredes a retocar a sua sala. Depois de três dias de trabalho o pintor disse para o escritor: - Se eu soubesse escrever à máquina também não fazia nada o dia inteiro. Ficava só escrevendo. O que eu quero dizer é que Escritor é uma profissão como outra qualquer. Interrogado por uma jornalista principiante, William Faulkner respondeu se era fácil ou difícil escrever: - Minha filha, ou é facílimo ou é impossível! Para mim, difícil é extrair um dente, operar uma vesícula, construir um prédio, defender um assassino ou fazer a contabilidade de uma empresa: escrever é facílimo. E, por ser facílimo para nós escritores, as pessoas, às vezes, se surpreendem com o nosso preço: - Mas você escreveu isso em meia hora! No que eu costumo responder: - Não cara, eu escrevi isso em 34 anos de profissão... Ou então: - Mas tudo isso por apenas vinte linhas? E eu retruco: - A teoria da relatividade tem apenas três letras... O que importa, em qualquer profissão, é que a gente goste do que está fazendo. É que a gente se divirta com o nosso próprio trabalho. Às vezes fico anos sem tirar férias e nem percebo. É como se eu estivesse sempre de férias. Remuneradas, é claro.
Alguns dos melhores escritores do mundo são brasileiros. O problema é
que todos eles escrevem em português, esta língua natimorta. Se escrevessem em
inglês... |
Retirado do Guia de Profissões de 1995 pág. 17