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AVENTURA NO PARQUE 
 

No banco verde do parque, onde eu lia distraidamente o Almanaque Bertrand, aquela sentença pegou-me de surpresa: “Colhe o momento que passa”. Colhi-o, atarantado. Era um não sei que, um flapt, um inquietante animalzinho, todo asas e todo patas: ardia como uma brasa, trepidava como um motor, dava uma angustiosa sensação de véspera de desabamento. Não pude mais. Arremessei-o contra as pedras, onde foi logo esmigalhado pelo vertiginoso velocípede de um meninozinho vestido à marinheira. “Quem monta num tigre (dizia à página seguinte, um provérbio chinês) quem monta num tigre não pode apear.” 

 

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Ao Longo Das Janelas Mortas 
 

Ao longo das janelas mortas
Meu passo bate as calçadas.
Que estranho bate!...Será
Que a minha perna é de pau?
Ah, que esta vida é automática!
Estou exausto da gravitação dos astros!
Vou dar um tiro neste poema horrivel!
Vou apitar chamando os guardas, os anjos, Nosso Senhor, as prostitutas, os mortos!
Venham ver a minha degradação,
A minha sede insaciável de não sei o quê,
As minhas rugas.
Tombai, estrelas de conta,
Lua falsa de papelão,
Manto bordado do céu!
Tombai, cobri com a santa inutilidade vossa
Esta carcaça miserável de sonho...

 

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COINCIDÊNCIA
 

Às vezes a gente pensa que está dizendo bobagens e está fazendo poesia

 

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DA INQUIETA ESPERANÇA

 
Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dê o Céu... quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório.

 

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DOS NOSSOS MALES

 

A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina.
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais...

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NOTURNO
 

Tudo ficou mais leve no escuro da casa.
As escadas pararam de repente no ar
Mas os anjos sonâmbulos continuam 
subindo os degraus truncados.
Atravessando o espelho como se entrassem
numa outra sala
O sonho vai devorando os sapatos
Os pés da cama
O tempo
Vovó resmunga qualquer coisa no fim
do século passado.

 

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O ESPELHO

 

Por acaso, surpreendo-me no espelho:
Quem é esse que me olha e é tão mais velho que eu? (...) 
Parece meu velho pai - que já morreu! (...)
Nosso olhar duro interroga:
"O que fizeste de mim?" Eu pai? Tu é que me invadiste.
Lentamente, ruga a ruga... Que importa!
Eu sou ainda aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra,
Mas sei que vi, um dia - a longa, a inútil guerra!
Vi sorrir nesses cansados olhos um orgulho triste...

 

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O MAPA

 

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
 
(E nem que fosse o meu corpo!)
 
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
 
Ha tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Ha tanta moca bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
 
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
 
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
 
E talvez de meu repouso...

 

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O POEMA

 

Um poema é como um gole d'água bebido no escuro.

Como um pobre animal palpitando ferido.

Como uma pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna.

Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.

Triste.

Solitário.

Único.

Ferido de mortal beleza.

 

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OS POEMAS

 

Os poemas são pássaros que chegam

não se sabe de onde e pousam

no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam vôo

como de um alçapão.

Eles não têm pouso

nem porto

alimentam-se um instante em cada par de mãos

e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

no maravilhado espanto de saberes

que o alimento deles já estava em ti...

 

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OS RETRATOS

 

Os antigos retratos de parede
Não conseguem ficar longo tempo abstratos.

Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados
Porque eles nunca se desumanizam de todo

Jamais te voltes pra trás de repente.
Não, não olhes agora!

O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim...
Sem fim e sem sentido...

Dessas que a gente inventava 
enganar a solidão dos caminhos sem lua.

 

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